A Santa Folia

                     Tornou-se notável a volta das folias em preparação aos festejos de Nossa Senhora dos Remédios em Arraias.
Alguns dias antes do certame eram despachadas para o sertão do Governo, Terras Novas, Santa Maria e Caatingas, as memoráveis folias do Divino. Grande congraçamento de fiéis em torno da Bandeira do Divino, os cantos, benditos, rodas e catiras de velhos e foliões neófitos.
Como sempre, o bom da festa começa pelos preparativos por parte do encarregado, uma maratona ímpar na junta da tropa, arreios, celas, cangalhas, bruacas, matula, provisão para os foliões e penitentes, chapéus, e tantos outros aparatos que constituem a parafernália obrigatória para o despacho da folia.  É festa pra cristão nenhum botar defeito.
Se triste, saudosa era a despedida do Divino, saindo para o giro; cheia de fé, alegria e apoteótica era a chegada da divindade, marcada pelo mesmo toque das caixas que pareciam saudosos na saída e agora, toques alegres e convidativos; “arrufamento” de caixas, trinado de pandeiros que faziam ecos entre as serras formando seus sons atrativos e convidativos que atraiam a todos para a praça da matriz de Senhora dos Remédios.
O povo da cidade, o sertanejo, os romeiros e visitantes, uma multidão incalculável, se acotovelava no largo da Igreja, cada um torcendo pelo brilho daquela que passou por sua região, todos estavam ali para prestigiarem fazendo o acompanhamento do seu grupo.
Cada grupo em um ponto estratégico da praça, enfim, chega o momento, surge o padre na porta principal acompanhando algum senhor que conduzia a Bandeira da Misericórdia, a Bandeira Grande da Igreja, a anfitriã que a passos lentos era conduzida até o cruzeiro central para o recebimento e vênias das demais chegantes.
O relógio marcava duas horas da tarde, sol de setembro, os olhos vidrados nos quatro cantos para ver o que acontece.
Entre gestos e olhares os fatos vão se sucedendo. Eis, que num passe de mágica, um dos galantes alferes suspende o véu sagrado que balança no ar e numa sequencia cadenciada, as demais repetem o mesmo gesto e todas começam a caminhada rumo ao cruzeiro fincado no meio do largo.
Os romeiros e devotos acompanham, as caixas e pandeiros de couro de campeira virgem, ampliam seus sons, palmas, vivas, dobrado de sino, tudo isto acompanhada das tradicionais rajadas e pipocos dos adrianos.
O canto alegre e ritmado dos foliões é sempre acompanhado pelas palmas na marcha dos devotos:

“Vamos minha gente,
com prazer e alegria
Viva o cravo, viva a rosa,
Viva a flor de Alexandria”

“Louvemos o Divino
com todo prazer
No céu e na terra
Ele é Pai pra nos valer”

                  Momento emocionante!, quando as bandeiras emparelhadas fazem as devidas vênias e reverências diante do cruzeiro plantado em frente à Igreja Matriz, fazendo sua saudação ao monumento da fé e da salvação ostentando as lembranças da Terra de Santa Cruz.
Ali mesmo entoam seus cantos, ladainhas e rogativas saudando a cruz do Senhor, passando à Igreja, aos ornamentos, às imagens ”as pequenas e as mais maió”, ao Vigário, ao sino, as candeias, que no céu é vela benta e cá na terra nos alumeia, ao “sãocristão” a todos os seres criados.    
Versos saudosos que arrancam lágrimas de saudades do que já se foram e o medo de não estar presente no outro ano, como também a saudade dos ausentes.
Finalmente, arrematando tudo com a boa palavra de incentivo e agradecimento do Vigário à corte sagrada do Espírito Santo e todos os seus fiéis devotos ali presentes e tão emprazerados.
Tudo terminado, beijo da bandeira, donativos, encontro de amigos, adeus compadre, adeus comadre, o Divino sai... agora, a real entrega e contagem das esmolas.  Qual a que ganhou?.......


Capa do CD "Ajoelha Povo", de Padre Jones